Alguém ainda se importa com os arquivos públicos?
Giro da Arquivo #379 – Uma crônica para o Dia Internacional dos Arquivos
09 jun. 2026 | Número 379 | ISSN 3086-383X
por Francisco Alcides Cougo Junior*
Cleuza tem 48 anos, é mãe-solo de dois filhos e, pela primeira vez, vê chances concretas de realizar seu grande sonho – ter um diploma de ensino superior. Ano passado, ela realizou o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), teve bom desempenho e está prestes a conseguir uma vaga na universidade federal.
Babá dos filhos de uma gente abastada que mora em Porto Alegre, ela vive em uma vila em Viamão, cidade da região metropolitana da capital – bem perto da universidade em que pretende estudar. Para realizar seu sonho, já organizou tudo: sabe com quem vai deixar os filhos à noite, no horário das aulas; negociou com o patrão uma mudança de horário, para não se atrasar; decorou a tabela de frequência dos ônibus que precisará tomar no deslocamento entre sua casa, o trabalho e a faculdade; reservou parte de seu mirrado salário para as despesas que virão.
Só uma coisa a preocupa. Para confirmar a vaga na universidade, ela terá de apresentar vários documentos. Um deles é o histórico escolar, um registro difícil de encontrar. É que a escola em que Cleuza estudou – um colégio estadual – foi extinta há anos, os documentos foram levados para um espaço no subsolo do Centro Administrativo Fernando Ferrari, em Porto Alegre, e o local, por desgraça e imprevisão, foi um dos muitos atingidos pela enchente de 2024.
Estimativas do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul apontam que mais de 40 mil caixas com documentos da Secretaria da Educação do Estado (SEDUC) foram afetadas pela inundação que manteve parte de Porto Alegre submersa por mais de uma semana. O histórico escolar de Cleuza estava dentro de uma dessas caixas – ao menos é o que lhe informaram na própria Secretaria. Não se sabe exatamente em que condições encontram-se os arquivos atingidos, se tudo foi perdido, se há alguma possibilidade de acessá-los ou se havia algo digitalizado. Na verdade, ninguém sabe muito bem o que aconteceu com a maior parte dos arquivos de órgãos estaduais atingidos pela enchente.
Cleuza se desespera. Ela nem sabia que a escola onde estudou havia sido extinta. Depois que soube do paradeiro dos documentos, perdeu um dia de trabalho, primeiro em uma malfadada visita ao Arquivo Público do Estado e, depois, na fila de atendimento da tal SEDUC, levada de um guichê a outro, sempre sem explicações muito conclusivas. Ao final da jornada, saiu de lá tomada por aflição, tristeza e dúvidas. Muitas dúvidas.
Como pode ser que 40 mil caixas com documentos públicos capazes de garantir direitos e mudar vidas tenham sido abandonadas à própria sorte (ou ao azar, neste caso)? Por que arquivos tão importantes foram deixados em um local tão suscetível? Por que não foram protegidos? E por que, dois anos depois, ainda não se sabe ao certo como estão e se, um dia, voltarão a ser acessíveis?
No ônibus, de volta para casa, Cleuza se lembrou do curso que havia planejado fazer na universidade (a licenciatura em História). Desiludida, pensou nas muitas histórias perdidas pela inação do Poder Público em relação à preservação de seus arquivos. Mas, também, em como a ausência de ações para a preservação e proteção destes mesmos arquivos muda histórias – geralmente para pior, como em seu caso.
Ainda muito longe de casa, Cleuza abre o Facebook na intenção de se distrair. Por ironia, a primeira publicação que lhe aparece trata de um tal Dia Internacional dos Arquivos, de democracia, justiça social e cidadania. De IA, de memória, de conflitos, representação e inclusão. Não há qualquer menção aos arquivos públicos, nem no card, nem na legenda da postagem.
Cleuza fecha o aplicativo, desliga o celular e volta a olhar pela janela do ônibus. Não sabe o que fará para realizar seu sonho. Na verdade, teme não realizá-lo.
Cleuza é um personagem fictício. Sua estória, nem tanto. Que neste Dia Internacional dos Arquivos não nos esqueçamos que é nos arquivos públicos (antes e sem demérito de quaisquer outros) que estão os direitos mais elementares dos cidadãos. E que eles não deveriam ser abandonados. Jamais.
* Francisco Alcides Cougo Junior é professor de Arquivologia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e coordenador do projeto "Giro da Arquivo: políticas arquivísticas em pauta".🤝Parceria
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🇧🇷 Brasil
Bahia: Prefeitura de Feira revitaliza prédio histórico do Arquivo Público Municipal. (Prefeitura Municipal de Feira de Santana)
Rio Grande do Sul: CCJ da Assembleia Legislativa reconhece acervo do Correio do Povo como de relevante interesse cultural e histórico. (Correio do Povo)
Brasília: Lançamento da Plataforma PDA+ (Preservação Digital em Arquivos para Todos). (IBICT).
Paraná: Projeto inédito do Paraná já digitalizou 5,5 milhões de páginas de documentos. (Bem Paraná Notícias).
Brasília: Arquivo do Senado comemora 200 anos com programação especial e histórias curiosas. (Rádio Senado)
📆 Agenda & Oportunidades
09/06, online: Apresentação da Rede Ibero-Americana de Arquivos Presidenciais. (RIAP)
10/06, online: Vestígios do Futuro: documentos e permanência digital.
10 a 12/06: IV Encontro da Rede Brasileira de Repositórios Digitais.
11/06, online: Webinar: Self-Determination and the Recognition of Non-Sovereign Peoples’ Archives.
É Semana Internacional/Nacional de Arquivos e a agenda está cheia. Confira a programação nacional.
Concurso: Brigada Militar (Rio Grande do Sul).
🌎 Mundo
México: Incêndio destrói escritórios do Ministério Público em Ojinaga; arquivos e provas são consumidos pelas chamas. (N+)
Espanha: Arquivistas denunciam abandono de documentos clínicos num hospital de El Bierzo. (Digital de León)
Bolívia: Ex-funcionário é preso por destruir arquivos da Prefeitura de Santa Cruz. (La Patria)
Alemanha: O caderno secreto de um tintureiro saxão revela 168 receitas têxteis do século XIX que a ciência conseguiu reproduzir. (El Diario)
📰 Para ler com calma
Exemplo de resiliência: como o Museu do Carvão, do Estado, recuperou o acervo de fotografias danificadas na enchente. (Governo do Estado do Rio Grande do Sul)
Arquivo Público de Pernambuco e a política nacional de arquivos. (Revista Continente).
Memória congelada. (Revista Piauí)
📺 Para ver com calma
Hablemos de Evaluación Documental, Democracia y Archivos de Cementerios con la Prof. Norma Fenoglio (Contenido Archivístico)
🟠 Sobre o Giro da Arquivo
Este boletim é um produto do projeto de extensão “Giro da Arquivo – Fase II: políticas públicas arquivísticas em pauta”, desenvolvido pelo Honório – Grupo de Pesquisas em Políticas Públicas Arquivísticas e vinculado ao Departamento de Arquivologia da Universidade Federal de Santa Maria. Contato: girodaarquivo@ufsm.br



